Quando eu era criança, frequentemente ouvia meus pais falarem: "ah, no meu tempo tudo era muito melhor". Eu tentava imaginar que tempo era aquele; criava imagens mentais. Eles pequenos. De modo incrível, pensava quase em preto e branco, sem conseguir criar muitas cores - isso talvez decorresse do fato de eu ter apenas visto fotos monocromáticas ou sépia de quando eram crianças. Mesmo nessas duas cores, pude recriar estórias - ou histórias - incríveis. Ao enxergar a minha rua e a minha casa com características totalmente diferentes, algumas bem rudimentares, passava a imaginar as brincadeiras e as confusões que meus pais eram capazes de criar na sua infância.
Entre brincadeiras e correrias, algo se destacava. Não havia o perigo iminente de hoje. Eles pareciam muito mais felizes. Podiam estrapolar, sair de casa sem deixar os pais preocupados, voltar pouco antes do pôr-do-sol. Era uma vida diferente. Hoje, é necessário todo o cuidado para evitar assaltos, sequestros, estupros. Preferível que as crianças - e até os adultos - fiquem em casa, uma fortaleza, cercada de métodos anti-invasão, onde estarão muito mais seguros, embora ainda haja o perigo. Mas e este existia no "meu tempo"? Será que posso lembrar do meu tempo e contá-lo a vocês? Tenho idade suficiente para olhar pra trás e, na pompa dos meus pais, dizer "no meu tempo era muito melhor"? Veremos.
Nasci no ano de 1989. Lembro que sempre fui o mais novo da turma. Ingressei adiantado em um ano na escola e era o "caçula" da turminha. Isso sempre foi motivo de observação para mim. Na escolinha de futsal do colégio, estava sempre atrasado com relação à categoria. Até mesmo de alguns que estavam em alguma série anterior. Estranho, mas engraçado. Hoje não me preocupo mais com essa questão. Sou o mais velho em muitas situações, e ter nascido em 89 já não me caracteriza como um novilho, mas mostra que estou chegando perto de grandes responsabilidades. O fato é que grandes responsabilidades geram grandes responsabilidades. E grandes responsabilidades necessitam de tempo. Não sei quando vou casar. Muito menos quando vou ter filhos. Mas projeto, com meus botões, finalizar a graduação o mais rápido possível. E nisso, está envolvida a questão do emprego e futuro profissional, além do casamento citado. E o profissional é duro. No duro está a falta de tempo, diversão, rir da vida. Como podemos olhar para "o nosso tempo" e lembrar que não o temos mais? Isso nos torna sonhadores e nostálgicos. A nostalgia, voltando ao início, faz meus pais lembrarem do seu tempo. E hoje me faz lembrar do meu.
Ontem estava curtindo um tempo para jogar vídeo-game. Após um dia bastante complicado, decidi preencher minha mente com outras coisas. Liguei o Nintendo 64 e joguei Mario Party. Alguns podem conhecer, outros não, mas já aviso que o jogo é bastante infantil. São brincadeirinhas, algumas sem qualquer graça, mas que possuem uma capacidade incrível de me divertir. Isso porque, embora infantil, fazem parte do meu tempo. E volto a dizer, no meu tempo tudo era muito melhor. Acho que sou praticamente desprovido da capacidade de crescer junto às mudanças na sociedade. Mudo até certo ponto. No meu limite, estagno. É quando preciso voltar ao passado e me divertir feito uma criança. É quando lembro de como tudo era muito mais legal.
Eram finais de semana. Família reunida em casa. Diversos primos e irmãos. Todos com o mesmo objetivo: fazer algo legal! O que decidíamos fazer? O que era bacana? Para mim, estar dentro do carro com minha mãe, indo à locadora de filmes era o máximo. Lembro que era quase um evento para mim. O momento do sábado era esse. Já extasiado com a busca dos diversos VHS, minha felicidade ía a pico quando visitávamos outra locadora maior, na busca pelas fitas de vídeo-game. Era chegar em casa, assoprar, plugar, e esperar que funcionasse para passar a noite se divertindo. Aquilo era demais! Era uma espera toda a semana! "Oba, hoje é sexta!". Isso significava que o final de semana seria mais uma etapa de brincadeiras e diversões. Não havia internet, nem celulares, muito menos grande parte da tecnologia que hoje nos promete facilidade e alegria. E ainda assim, éramos felizes demais! Quando tínhamos tempo, ficávamos sentados num sofá na casa da minha vó, contando histórias, e meus tios, com todo o gosto, contavam diversas e diversas passagens de sua infância. Se o vídeo-game por algum acaso não estava ativo, a gente ia pro computador jogar "Virtua Soccer", ou "Fifa" daqueles antigos. Mas o que fazer não era importante. Qualquer atividade era motivo de regalias pessoais. A espera pelo novo caracterizava uma ansiedade que se unia à felicidade e juntas tornaram minha infância muito boa. Mas esse tempo também será feliz aos futuros adultos. De modo diferente.
Daqui a alguns anos, essa geração passará e os jovens de hoje serãos os adultos amanhã. Certamente lembrarão da sua infância com saudade. No ínterim em que se encontram, declararão ter sido muito felizes. E tenho certeza que sim. Mas soa diferente. Hoje o pessoal vive em uma época muito tecnológica, na busca incessante por algo que satisfaça qualquer necessidade, algo que me deixa triste. Nossos pais foram felizes com o que tinham. Possuíam muito menos que nós. No futuro, haverá um enorme anseio por futilidades que antes jamais seriam necessárias às pessoas. E isso crescerá gradativamente. Basta observar nossa realidade.
As crianças e adolescentes dominam a linguagem dos computadores e superam qualquer idoso na experiência com a máquina. Se querem algum jogo novo, não precisam esperar pelo final de semana. Basta fazer download, gravar em um DVD ou CD, colocar no vídeo-game ou computador e sair jogando. Se quiserem se comunicar com alguém, bastam alguns cliques. O velho telefone está sendo esquecido. Há celulares, smartphones, mensageiros online instantâneos. Não é necessário aguardar ansiosamente pela meia-noite, ou pelos finais de semana para ser permitido o uso da internet lenta. Hoje é tudo muito rápido, instantâneo. E para os trabalhos de escola? Fácil! Basta acessar a Wikipedia e copiar. O dez é quase garantido. As bibliotecas não são mais visitadas. A busca se perdeu, a pesquisa se foi. Não sei o que vai acontecer com esse tempo. O que será do futuro? Daqui a duas ou três gerações? Contarão, com o orgulho de meus pais, como foi o seu tempo? Com orgulho, dirão "tuitei muito na minha infância", "assisti mais de mil vídeos no youtube", "fiz muitos amigos no orkut/facebook", "minha alegria era baixar programas piratas e jogos para me divertir", "escutava música de maneira instantânea na internet, era fácil"? Talvez sim. Mas, onde está a emoção? Talvez eu tenha estagnado além da conta. Mas é triste, de qualquer forma, pensar em um futuro em que "no meu tempo" já não há histórias divertidas e puras para se contar.
Daqui a alguns anos, essa geração passará e os jovens de hoje serãos os adultos amanhã. Certamente lembrarão da sua infância com saudade. No ínterim em que se encontram, declararão ter sido muito felizes. E tenho certeza que sim. Mas soa diferente. Hoje o pessoal vive em uma época muito tecnológica, na busca incessante por algo que satisfaça qualquer necessidade, algo que me deixa triste. Nossos pais foram felizes com o que tinham. Possuíam muito menos que nós. No futuro, haverá um enorme anseio por futilidades que antes jamais seriam necessárias às pessoas. E isso crescerá gradativamente. Basta observar nossa realidade.
As crianças e adolescentes dominam a linguagem dos computadores e superam qualquer idoso na experiência com a máquina. Se querem algum jogo novo, não precisam esperar pelo final de semana. Basta fazer download, gravar em um DVD ou CD, colocar no vídeo-game ou computador e sair jogando. Se quiserem se comunicar com alguém, bastam alguns cliques. O velho telefone está sendo esquecido. Há celulares, smartphones, mensageiros online instantâneos. Não é necessário aguardar ansiosamente pela meia-noite, ou pelos finais de semana para ser permitido o uso da internet lenta. Hoje é tudo muito rápido, instantâneo. E para os trabalhos de escola? Fácil! Basta acessar a Wikipedia e copiar. O dez é quase garantido. As bibliotecas não são mais visitadas. A busca se perdeu, a pesquisa se foi. Não sei o que vai acontecer com esse tempo. O que será do futuro? Daqui a duas ou três gerações? Contarão, com o orgulho de meus pais, como foi o seu tempo? Com orgulho, dirão "tuitei muito na minha infância", "assisti mais de mil vídeos no youtube", "fiz muitos amigos no orkut/facebook", "minha alegria era baixar programas piratas e jogos para me divertir", "escutava música de maneira instantânea na internet, era fácil"? Talvez sim. Mas, onde está a emoção? Talvez eu tenha estagnado além da conta. Mas é triste, de qualquer forma, pensar em um futuro em que "no meu tempo" já não há histórias divertidas e puras para se contar.
* Um beijo especial para a minha namorada. Te amo.